Georgia e Alabama – Dois programas cheios de história

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O jogo desta segunda-feira será a segunda vez desde o advento do Bowl Championship Series (sistema imediatamente anterior ao College Football Playoff para decidir o título nacional) que uma final será disputada por times da mesma conferência: Alabama e Georgia prometem um jogo que exalará rivalidade, tanto pelos programas que não são estranhos um ao outro quanto pelo histórico de Nick Saban e Kirby Smart, que já discutimos anteriormente – certamente um marco na história do college football!

De qualquer forma, são dois programas muito tradicionais que já estiveram no topo do college football múltiplas vezes ao longo da história – é claro que Alabama tem tido mais sucesso recentemente e coleciona mais títulos nacionais (em grande parte por ter sido comandada por grandes técnicos), mas isso não tira mérito nenhum dos grandes feitos que Georgia.

Prólogo: Uma história complicada

Antes de começar a falar sobre os títulos das equipes, precisamos fazer um adendo: nem sempre o mundo do college foi tão organizado como atualmente e, por muito tempo, várias equipes eram nomeadas campeãs nacionais em diferentes polls. As mais famosas de hoje são a do Comitê dos Playoffs – única oficial -, além da AP e Coaches’ Poll, mas outros top 25’s já existiram e, ao fim do ano, estes declaravam o “seu” campeão nacional. Muito disso ocorreu antes da popularização dos bowl games e das transmissões nacionais de jogos, ou seja, sem um panorama de facto nacional na competição, muitas vezes prevalecendo regionalismos – intencionalmente ou não, pollsters (os “eleitores”) de certa região tenderiam a declarar campeã uma equipe geograficamente próxima a si, por ter tido a chance de vê-la jogar, por exemplo.

O advento dos bowl games e, posteriormente, o uso destes nos sistemas Bowl Coalition (1992-94), Bowl Alliance (1995-97) e Bowl Championship Series (1998-2013) permitiu que cada vez menos equipes dividissem títulos nacionais, uma vez que começou a forçar-se matchups entre as melhores equipes na Bowl Season para servir de tira-teima.

Mas o college football não começou em 1992 – mais de 120 anos antes, na real – e muitas das temporadas antigas tiveram múltiplas campeãs. Esses “títulos” podem ser classificados de duas formas:

  1. Quanto à consensualidade: dizemos que um título é consensual quando as maiores polls apontavam determinada equipe como campeã; e
  2. Quanto à reivindicação: uma universidade podia ou não reivindicar certo título – muitas vezes, polls menores davam o #1 para um time mas este não contava como um título nacional, já que as maiores e mais influentes apontavam outras equipes.

Ufa! Agora que você sabe um pouquinho mais sobre a (confusa) história do college football, vamos falar de Georgia e Alabama.

Georgia: Uma história de playmakers

Os Bulldogs têm apenas dois títulos nacionais reivindicados, das temporadas de 1942 e 1980 – ambas tendo como destaque jogadores que eventualmente venceriam o Troféu Heisman.

  • 1942: Liderados pelo técnico Wally Butts, o elenco de 1942 era descrito como o melhor das 50 primeira temporadas de futebol americano de Georgia, tendo como destaque os All-Americans Frank Sinkwich (halfback que levaria o Heisman ao final do ano) e George Poschner, além de um calouro que se tornaria nos anos seguintes um dos melhores atletas a vestir um uniforme dos Bulldogs, Charley Trippi. Georgia derrotou nove oponentes consecutivos e chegou à posição #1 do país, mas acabou sendo surpreendida por Auburn antes de derrotar a rival e então invicta Georgia Tech por 34 a 0 e levar o título da conferência SEC, com um convite para o Rose Bowl de bônus. Em Pasadena, Georgia derrotou UCLA por 9 a 0 e terminou o ano em 11-1 e sendo nomeada campeã nacional em seis polls reconhecidas pela NCAA: DeVold, Houlgate, Litkenhous, Williamson, Poling e Berryman (a AP deu o título para Ohio State).
  • 1980: Este foi sem dúvidas o melhor time que já passou por Athens – pelo menos até o de  2017, que pode fazer essa afirmação ser revista se derrotar Bama. Sob o comando do técnico Vince Dooley, a equipe terminou o ano invicta com 12-0, incluindo uma senhora vitória sobre Notre Dame no Sugar Bowl. Depois de iniciar a temporada quase de fora dos rankings, os Dawgs escalaram com garra semana a semana, chegando ao topo após vitórias consecutivas sobre South Carolina (13 a 10) e Florida (26 a 21), duas equipes ranqueadas. No Sugar Bowl, o mundo todo conheceu de uma vez por todas um calouro chamado Herschel Walker, que viria a se tornar vencedor do Heisman dois anos depois e ídolo da NFL nos anos 90: seus dois touchdowns foram cruciais na vitória por 17 a 10, alavancando o programa ao seu segundo título nacional – única equipe invicta, aliás, Georgia foi campeã UNÂNIME naquele ano.

Os dois vencedores do Heisman de Georgia: Frank Sinkwich e Herschel Walker.

Além desses dois títulos, há três outros que UGA não reivindica, nomeadamente:

  • 1927: O “Dream and Wonder Team” do técnico George Cecil Woodruff venceu seus nove primeiros jogos – incluindo a partida fora de casa contra Yale, uma das potências da década de 1920 – e chegou à última semana como #1, mas foi surpreendida pela rival Georgia Tech num jogo cheio de lama em Atlanta no season finale. Mesmo não levando o título da conferência, duas polls (Boand e Poling) categorizaram aquela como uma temporada de título nacional tanto pelo resultado contra Yale (uma das equipes também nomeadas campeãs em outras polls, assim como Illinois e Texas A&M) quanto pelo fato de ter vencido seis jogos por shutout.
  • 1946:  Retornando a UGA após a Segunda Guerra Mundial, Trippi e outros companheiros da equipe de 1942 levaram os Dawgs a uma temporada regular perfeita em 10-0, além de uma vitória por 20 a 10 sobre UNC no Sugar Bowl. Apesar disso, mas major polls declararam Notre Dame como campeã daquele ano – apenas a Williamson Poll colocou Georgia como #1 ao final do ano.
  • 1968: Outro time forte de Dooley, este terminou a temporada regular invicto, porém com dois empates (8-0-2). No Sugar Bowl, entretanto, sofreu uma derrota para Arkansas, mas ainda foi #1 na Litkenhous Poll.

Charley Trippi foi campeão nacional, MVP do Rose Bowl, vencedor do Maxwell Award, duas vezes All-American e até mesmo lutou na Segunda Guerra Mundial durante sua carreira em Athens.

Alabama: Uma história de técnicos lendários

Se as temporadas de títulos de Georgia tiveram como padrão a presença de jogadores excelentes, as 16 (sim, DEZESSEIS!) de Alabama foram, em geral, frutos de sistemas bem estabelecidos e continuidade – características que sempre são méritos de um head coach: quatro técnicos da Crimson Tide conquistaram múltiplos títulos reivindicados pelo programa!

Assim como no caso de Georgia, tudo começou no Rose Bowl…

  • 1925: Numa época em que o futebol no deep south americano ainda não era tão respeitado quanto hoje em dia, Alabama terminou a temporada regular em 9-0 e foi para o Rose Bowl – primeira equipe do sul a ser convidada para o jogo – contra a também invicta Washington, cometendo um dos maiores upsets da história ao derrotar os Huskies por 20 a 19 e colocar para sempre o nome do programa no mapa e na história, já que inúmeras polls dão o título de 1925 à Crimson Tide. Os destaques da temporada foram Johnny Mack Brown e o All-American Pooley Hubert, que foram cruciais nas duas principais vitórias da temporada: contra Georgia Tech em Atlanta (Brown retornou um punt para touchdown, mas graças a tackles cruciais de Hubert que tirou dois adversários do caminho) e o próprio Rose Bowl.

Johnny Mack Brown sofrendo um tackle no Rose Bowl de 1926.

  • 1926: No ano seguinte, Bama continou brilhando e o head coach Wallace Wade conquistou seu segundo título tendo agora como estrelas os All-Americans Hoyt Winslett e Fred Pickhard. Depois de mais uma temporada regular terminada em 9-0 e na qual a única partida realmente difícil foi a vitória por 2 a 0 sobre Sewanee (à época, um time muito bom). Assim, Alabama foi novamente convidada para o Rose Bowl, desta vez contra Stanford (que também teve nomeação de campeã, assim como Navy e Lafayette), só que o jogo em si foi bem anticlimático, terminando num empate em 7 a 7 que não ajudou em absolutamente nada a decisão sobre qual era mais merecedora do título.
  • 1930: Em seu último ano à frente do programa, Wade conquistou seu terceiro título. A narrativa foi similar: Alabama dominou o futebol americano no sul, tomando apenas 13 pontos durante a temporada inteira – incluindo o Rose Bowl (naquela época, era o único bowl game que existia, frise-se) que, desta vez, foi uma dominação completa sobre Washington State, 24 a 0 – Wade estava tão confiante na superioridade da sua equipe que iniciou o jogo apenas com reservas! E não era para menos: com um tackle extraordinário como Fred Sington em seu último ano, sendo escolha All-America unânime e um halfback talentoso como John Henry Suther, também All-American, a equipe deixou no zero oito de seus dez oponentes do ano!
  • 1934: Agora sob o comando de Frank Thomas, a Crimson Tide contou com jogadores como o end Don Hutson (que viria a integrar, no futuro, SETE Halls da Fama diferentes – Alabama, Arkansas, Green Bay Packers, NFL, College, Helms Foundation e Wisconsin), o tailback Dixie Howell e o tackle Bill Lee, todos com honrarias de All-American e novamente chegou invicta ao Rose Bowl, desta vez derrotando Stanford por 29 a 13 e sendo indicada como campeã por várias polls.
  • 1941: Alabama foi co-campeã de 1941 ao ser indicada como #1 pelo Houlgate System. Naquele ano, ainda sob o comando de Thomas, o time terminou a temporada em 9-2 (derrotas para Mississippi State e Vanderbilt), tendo como destaque o end All-American Holt Rast. Na pós-temporada, dessa vez foram convidados para o Cotton Bowl, no qual derrotaram a campeã da SWC, Texas A&M, por 29-21 – neste jogo, Jimmy Nelson retornou um punt para 72 jardas, Russ Craft fez dois touchdowns e Rast, no último jogo de sua carreira, retornou uma interceptação até a end zone adversária.
  • 1961: Em seu quarto ano à frente da Crimson Tide, o lendário Paul “Bear” Bryant conquistou o primeiro de seus seis títulos nacionais. Liderado pelo quarterback Pat Trammell, pelo center/linebacker Lee Roy Jordan e por Billy Neighbors, que atuava nas duas linhas, o time venceu todos seus 11 jogos por um placar combinado de 297 a 25 e terminou o ano como #1 da AP e Coaches’ Poll. No Sugar Bowl, a equipe derrotou Arkansas, um time do top 10, por 10 a 3.
  • 1964: Vitórias nos dez jogos da temporada regular com uma futura lenda da NFL under center: Joe Namath. No jogo que o apresentou de uma vez por todas ao mundo, o Orange Bowl de 1965 (e não o Super Bowl III que venceu pelos Jets), ele teve uma performance incrível, sendo nomeado MVP mesmo com a derrota da Crimson Tide para Texas. De qualquer forma, a equipe foi nomeada campeã nacional novamente pelas duas principais polls.

Bear Bryant consolando Joe Namath após a derrota no Orange Bowl de 1965 – talvez a melhor fotografia de toda a história do college football (pelo menos na opinião deste autor).

  • 1965: Depois de perder a primeira partida do ano por 18 a 17 para Georgia, Alabama não perdeu mais (porém empatou com Tennessee e 7 a 7) e chegou ranqueada em #4 ao Orange Bowl contra #3 Nebraska. Nenhuma equipe tinha pretensões realistas de título, mas com o CAOS que fez #1 Michigan State e #2 Arkansas sofrerem antes desta partida upsets no Rose Bowl para UCLA e Cotton Bowl para LSU, respectivamente, ficou claro que quem vencesse entre Crimson Tide e Cornhuskers seria a campeã. Depois de trocarem pontos no começo da partida, o braço de Steve Sloan, substituto de Namath, fez a diferença e Alabama venceu por 39 a 28, sendo declarada #1 pela AP (a Coaches’ Poll deu o título para Michigan State apesar da derrota).
  • 1973: Temporada regular invicta e terminando em #1, campeã da SEC e vaga no Sugar Bowl para enfrentar, pela primeira vez na história, Notre Dame. O duelo entre dois dos melhores técnicos da história – Bear Bryant vs. Ara Parseghian – foi uma partida que entrou para os anais do college football, com vitória de Notre Dame por 24 a 23. Ainda assim, a Coaches’ Poll ranqueou Bama como campeã nacional.
  • 1978: A única derrota da temporada regular veio para USC em Birmingham ainda em setembro, o time se recuperou e conquistou mais uma vez a conferência, terminando a temporada regular em #2 e com vaga no Sugar Bowl, desta vez para enfrentar #1 Penn State, do lendário Joe Paterno. Em um jogo muito pegado e definido nas trincheiras, quem salvou o dia foi o front seven de Bama, que parou o tailback Matt Guman em uma quarta descida a centímetros da end zone e garantiu a vitória por 14 a 7 e título nacional da AP (na Coaches’ Poll, quem terminou em #1 foi justamente USC).
  • 1979: Títulos consecutivos pela segunda vez sob Bear Bryant! Depois de uma temporada regular perfeita, a equipe foi novamente para o Sugar Bowl, dessa vez tendo Arkansas como adversária. Com uma performance incrível do running back Major Ogilvie, que teve dois touchdowns, a Crimson Tide venceu a batalha de jardas terrestres por 284 a 97 e levou o jogo por 24 a 9, dando a Bear Bryant seu sexto e último título.

Bear Bryant foi um dos melhores técnicos da história.

  • 1992: Único técnico dos listados aqui a ser campeão com Alabama apenas uma vez, Gene Stallings montou em 1992 uma defesa feroz, que cedeu menos de 12 pontos a dez de seus 13 oponentes, além de ter colecionado 22 interceptações. Chegando a New Orleans como #2 para enfrentar #1 Miami no Sugar Bowl, Bama não se deixou intimidar nem mesmo pelo quarterback Geno Torretta, vencedor do Heisman: a defesa interceptou três de seus passes na improvável vitória por 34 a 13 e garantiu mais um título.
  • 2009: O time tinha basicamente o mesmo layout que atualmente, marca do head coach Nick Saban: defesa forte, jogo terrestre físico e dominante (Mark Ingram conquistou o primeiro Troféu Heisman da história do programa) e um quarterback bom o suficiente pra fazer handoffs sem soltar a bola – e, de vez em quando, arriscar uns passes. Chegando ao BCS Championship Game invicta e como #1, derrotou #2 Texas em Pasadena por 37 a 21, transformando Saban no primeiro técnico da história a conquistar títulos nacionais com dois times diferentes (fora campeão em 2003 com LSU).

Mark Ingram (22) comemorando um touchdown na final contra Texas.

  • 2011: Com um total de SETE first-team All-Americans (Mark Barron, Barrett Jones, Dont’a Hightower, Dre Kirkpatrick, DeQuan Menzie, Trent Richardson e Courtney Upshaw), a única derrota da Crimson Tide em 2011 foi para LSU por 9 a 6 (com direito a prorrogação), mas acabou conseguindo chegar ao Championship Game de qualquer forma enfrentando justamente os Tigers (a outra final entre duas equipes da mesma conferência que citamos lá em cima, lembra?) e fez jus ao provérbio “A vingança é um prato que se come frio”, se lambuzando por 21 a 0 no Superdome e conquistando o título nacional.
  • 2012: Esta temporada muitos devem ter na memória ainda, por dois motivos: primeiramente, o confronto SENSACIONAL entre Alabama e LSU no Death Valley que, certamente, é um dos melhores jogos desta década e, em segundo lugar, pela derrota sinistra e inesperada sofrida em casa para Texas A&M de Johnny Manziel. Ainda assim, Bama chegou à final para enfrentar a invicta Notre Dame no (à época) Sun Life Stadium, que foi facilmente dominada pela forte defesa e pelo ataque cheio de playmakers (Eddie Lacy, Amari Cooper e TJ Yeldon), resultando num atropelamento por 42 a 14.
  • 2015: O título mais recente veio na segunda edição do College Football Playoff. Depois de uma temporada regular cujo único ponto negativo foi a derrota para Ole Miss, a equipe de Saban dominou o restante do ano, com a linha ofensiva produzindo mais um Troféu Heisman (o do running back Derrick Henry) e chegando como #2 ao College Football Playoff. Na disputa pelo título, derrotou #3 Michigan State no Cotton Bowl por 38 a 0 e #1 Clemson no Championship Game por 45 a 40 em outro jogo que foi um instant classic.

Embora seja impossível imaginar o futebol americano de Alabama sem associá-lo a Bear Bryant, Nick Saban já conquistou seu devido lugar no “panteão” de Tuscaloosa com seus quatro títulos nacionais.

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