Last Chance U – Há algo de podre no esporte

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Esportistas são os deuses da era moderna. Eles correm mais rápido, levantam mais peso e parecem saber voar. É por isso que estampamos seus rostos em nossas camisetas e nas paredes e damos os nomes deles aos nossos filhos. Eles são ricos, famosos e ganham a vida fazendo o que fazemos por diversão. É muito fácil esquecer que o esporte não é sempre tão bonito assim – e Last Chance U, docu-série da Netflix sobre o futebol americano universitário, faz questão de nos lembrar da dura realidade.

Sacrifícios aos deuses

Dos milhões de garotos americanos que sonham em jogar na NFL, quantos de fato chegam sequer ao college football? Desses, quantos chamam a atenção dos times profissionais para chegar ao topo do mundo? Quanto tempo eles passam na NFL?

Na verdade, a maioria dos jogadores sequer passa mais do que três anos na NFL, menos tempo do que demoram para conseguir sair das universidades com um diploma.

Last Chance U conta a história do time de futebol americano da East Mississippi Community College, uma das diversas junior colleges dos Estados Unidos, que oferecem apenas os dois primeiros anos da formação universitária. Os jogadores de East Mississippi CC Lions são, em geral, garotos locais como o quarterback Wyatt Roberts. A diferença é que a equipe atrai também jogadores como John Franklin III, um drop-out de Florida State que busca a chance de chamar a atenção de outra grande universidade depois de ter sido relegado ao banco pelos Seminoles.

Isso porque a equipe dos Lions, comandada pelo treinador Buddy Stephens, tem fama de ser a porta de entrada para os grandes programas. Em alguns casos, porta de retorno, como aconteceu com Chad Kelly.

Kelly, um estudante-atleta e sobrinho do famoso Jim Kelly, não aparece na série. Ele é o mais recente caso de sucesso do treinador, tendo se transferido para Ole Miss depois de uma temporada e um título nacional das junior colleges. Kelly havia sido anteriormente expulso de Clemson depois de vários incidentes comportamentais. Assim como ele, diversos outros jogadores procuram os Lions tendo como única ambição sair dali o quanto antes, sem nenhuma preocupação acadêmica. É nesse ponto que entra em ação a verdadeira heroína da série.

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Pra que serve uma universidade?

Rapidamente na série, o destaque é passado da parte esportiva para Brittany Wagner, a conselheira acadêmica dos jogadores, responsável por garantir que eles estejam em sala de aula e tirem a nota mínima para estar elegíveis para jogar. Mais do que uma manutenção do arsenal de talentos da equipe, é possível notar a preocupação real de Wagner com os jogadores. Essa preocupação salta aos olhos quando ela demonstra raiva e tristeza com o fato de ser ignorada pelos jogadores em seu esforço.

A preocupação da conselheira parece ser ainda maior com o running back DJ Law e com o pass-rusher Ronald Ollie. A história familiar dos dois recebe destaque por ser a realidade de nove entre dez estudantes-atletas. Em resumo: problemas familiares, violência, mortes, abandono e o esporte como grande oportunidade.

Mas oportunidade para quê? Os olhos dos jovens jogadores brilham a todo instante quando a NFL é citada, mas raramente algum deles parece se preocupar em sair da sua experiência universitária com um diploma. Law faz questão de estar constantemente fora da sala da aula. Ollie sente tanta falta de casa que não pode esperar dois minutos dentro de uma concussão para estar visitando a família. Ambos parecem ignorar completamente o fato de que a chance de se tornarem jogadores profissionais é ainda menor do que as chances de um garoto da high school chegar até onde eles chegaram. E a única pessoa disposta a lhes dizer isso é justamente Brittany, a única que vive lhes repetindo que eles são os primeiros de seus famílias em uma universidade e podem usar isso para revolucionar seus mundos.

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O maior monstro, o melhor amigo

É incrível ver a cara de pau do treinador Buddy Stephens. Ele salta de uma hipocrisia a outra, grita com os seus jogadores como se fossem soldados, ignora recomendações e passa a temporada inteira dando mauls exemplos. Ainda assim, é um gênio do ponto de vista esportivo.

A isso, claro, se deve o seu sucesso. Não fosse tão bom em convencer esses jovens de que seus sonhos profissionais estão a 100 jardas de distância, Stephens jamais conseguiria trazer grandes estudantes-atletas para seu programa. Ele, entretanto, se preocupa o menos possível com o bem estar e o futuro de seus atletas. O conflito que tem com Ollie ao duvidar da concussão do jogador exemplifica bem o egoísmo do treinador.

Não bastasse demonstrar toda sua mesquinharia e ignorância ao longo da temporada, o treinador ainda volta atrás de sua única atitude correta, no final da temporada, ao notar que todos os seus comandados discordam dele. Ele foge da sua redenção em troca de manter na equipe as peças que poderá usar na próxima temporada.

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O mundo foge das mãos

É difícil assistir Last Chance U. Não pelos aspectos técnicos, onde a série é primorosa. O problema é que o documentário nos lembra de tudo que nós, fãs de esportes universitários, queremos esquecer. Nos lembra que aqueles garotos em campos são apenas jovens em busca da oportunidade de uma vida e que a maioria deles irá falhar. Nos lembra que esse é um mercado onde os principais trabalhadores não lucram nada. Nos lembra que estamos num mundo universitário onde o estudo e o aprimoramento da mente parece importar muito menos que um título nacional.

Last Chance U entra na galeria de grandes verdades do esporte que precisavam ser ditas. Nos mostra os resultados de uma mentalidade focada apenas no sucesso total na vida de jovens que mal sabem o que querem da vida. E o episódio de fechamento da série serve como uma grande metáfora sobre o que estamos fazendo quando dizemos que só o que importa é vencer: não fosse um documentário, seria uma daquelas histórias que jamais acreditaríamos ser possíveis de acontecer na vida real!

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