Como o futebol brasileiro vai te fazer entender a Bowl Season

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Se você é um fã mais recente do futebol americano universitário, já deve ter parado para se perguntar: o que diabos são esses bowl games dos quais todo mundo fala? É complicado explicar sem falar muito em história e dar uma boa base de contexto para tal, mas como eu tenho uma tendência a achar que todo mundo entende tudo sobre futebol, vou tomar o Brasileirão como ponto de partida e tentar explicar metaforicamente o processo pelo qual o futebol americano universitário passou ao longo de sua história.

Antes de começarmos, imagine que o Brasil passe por uma Grande Depressão e o futebol deixe de ser uma atividade profissional, se tornando plenamente amador. Para ter menos gasto com logística, as séries A, B, C e D se fundiram e todas os 100 times passem a competir pelo mesmo título – agora não há mais rebaixamento nem promoção. O modelo “todos contra todos” com turno e returno (apontado por muitos como o sistema mais justo para se determinar o campeão de uma competição) obviamente não funciona mais, já que cada equipe precisaria jogar 198 partidas numa temporada – algo totalmente inviável. O que fazer então?

Bem… neste cenário pós-apocalíptico, os caras jogam apenas pelo prazer de jogar (ok, e também para serem vistos pelos grandes clubes da Europa, que pagam bons salários aos seus jogadores – vai que surge uma oportunidade, né?) e não estão muito preocupados com quais adversários enfrentam.

curintiaAlgumas equipes que tinham um passado mais tradicional na região sudeste do Brasil resolveram formar um grupo e jogar umas contra as outras: eles se autointitularam Conferência Sudeste e os times que fazem parte do grupo são São Paulo, Vasco, Santos, Flamengo, Cruzeiro, Fluminense, Palmeiras e Atlético Mineiro – o pessoal do Corinthians se achava forte demais para se limitar regionalmente e o time acabou ficando independente mesmo.[note]Tal qual Notre Dame.[/note]

As oito equipes do Sudeste jogavam umas contra as outras e, ao final da temporada, aquela que tinha mais pontos era declarada campeã da conferência. Vendo que esse modelo era interessante, várias outras equipes começaram a se juntar e formar grupos regionais também: no Sul, Grêmio, Internacional, Juventude, Coritiba, Atlético Paranaense, Paraná, Chapecoense, Avaí e Criciúma formaram a Conferência Sul-9 e o mesmo começou a acontecer em outras regiões. Mesmo em regiões que já tinham conferências, acabaram surgindo outras, como a Conferência Atlântica, formada pelos times que haviam sido negados pela Sudeste e Sul-9: Botafogo, Portuguesa, Ponte Preta, São Bernardo, Bangu, America, Cabofriense, Londrina e Operário.

Assim, alguns anos se passaram nos quais cada conferência tinha seu campeão e isso era suficiente. Mas a internet ainda existia e, como sabemos, o ser humano sempre teve a necessidade de contar vantagem sobre outros seres humanos, portanto as coisas estavam começando a ficar difíceis: meu time venceu a Sul-9 e o seu venceu a Sudeste, mas como não há nenhum sistema nacional, minha vida se complicaria na hora de afirmar que meu time era melhor que o seu – que prova eu teria para isso?

Assim, a mídia esportiva se reuniu e resolveu lançar um Top 25 semanalmente durante a temporada, que agora não acontecia mais ao longo do ano inteiro, mas só de setembro a dezembro – lembre-se, futebol não mais dava dinheiro, então os jogadores precisavam garantir sua sobrevivência financeira nos outros meses.

Os caras que votavam nisso eram experts – Mauro Cezar Pereira, Mauro Betting, Tostão, Mauricio Noriega, Juca Kfouri e PVC são só alguns dos nomes -, portanto o que os Top 25’s deles diziam era lei e a cada ano o time que terminava em primeiro na edição final era declarado campeão nacional. Simples né? Nem tanto… Além da imprensa esportiva como um todo, vários jornais de grande circulação começaram a fazer seus próprios Top 25’s e declarar os seus campeões nacionais.

O próximo passo, dado pelas equipes, foi começar a marcar um ou outro jogo contra alguém de outra conferência na temporada. O Palmeiras, por exemplo, renovou sua rivalidade com o Corinthians através de jogos anuais que, embora fossem importantes pros egos dos jogadores e torcedores, de nada significariam para o título da conferência antes – mas como o cenário se tornara nacional, uma vitória sobre algum time grande de outro lugar do país até ajudava![note]No college football, este é o período aproximadamente equivalente ao início do último século.[/note]

Num determinado ano, a Prefeitura de Mata de São João, na Bahia[note]Cidade em que fica a Costa do Sauípe.[/note], resolveu adicionar às festividades de Ano Novo um jogo de futebol e, para isso, convidou duas equipes para um jogo amistoso, uma da Conferência Sudeste e outra da Conferência Nordeste: este foi o primeiro Desafio Norte-Sul do Sauípe entre Sport e São Paulo. Nos anos seguintes, a Prefeitura resolve trouxe atrações esportivas diferentes (desde vôlei de praia até corrida de jet ski no mar), mas percebeu que nenhuma deles deu tanto retorno (financeiro, obviamente) quanto a partida de futebol, então o prefeito resolveu efetivar um jogo como atração anual, sempre trazendo uma equipe da região contra alguma do Sudeste. Pra aumentar mais ainda a audiência, eles resolveram chamar apenas campeões de conferência, então num ano era Vitória contra Flamengo, no outro Santa Cruz contra Cruzeiro – o Vasco incrivelmente ficava em segundo lugar quase todo ano – e assim por diante.

Os negócios cresceram e a Prefeitura resolveu construir um estádio exclusivamente para abrigar o jogo anual. O formato do estádio acabou sendo parecido com o de uma tigela, então o grupo responsável pelo empreendimento resolveu batizá-lo de Sauípe Bowl (tigela, em inglês).[note]Qualquer semelhança com a história de surgimento do Rose Bowl Stadium NÃO é mera coincidência.[/note] O jogo anual passou a se chamar Sauípe Bowl Game, ganhou transmissão na Rede Globo e virou um grande sucesso – o suficiente para que outras cidades começassem a copiar o formato.

Foi nessa época que surgiu o Farroupilha Bowl no Estádio Beira-Rio (campeão da Conferência Sul-9 contra o campeão da Conferência Amazonas), o Copacabana Bowl no Rio de Janeiro (com os campeões da Atlântica e da São Francisco se enfrentando) e vários outros – aumentando cada vez mais o número de jogos ao longo de todo o território brasileiro.[note]Acho que agora você conseguiu entender como os bowl games surgiram né?[/note]

Com esses jogos se expandindo e tomando grandes proporções, os veículos responsáveis por nomearem campeões nacionais começaram a fazer isso apenas depois de janeiro (a Bowl Season), já que muitos desses “bowl games” serviam de tira-teima – grande parte dessas equipes não se enfrentavam na temporada regular, então um desafio entre os melhores de cada conferência acabava servindo de “régua” para medir os desempenhos de todas as equipes envolvidas. Surgiu também o interesse publicitário: várias marcas passaram a patrocinar as partidas, que eram transmitidas nacionalmente. Aí passamos a ter Vivo Sauípe Bowl, Gerdau Farroupilha Bowl, Itaú Copacabana Bowl, Cielo Metrópole Bowl (em São Paulo), TAM Látex Bowl (em Manaus), Madero Pinhão Bowl (em Curitiba) e assim por diante. Com o passar do tempo, começaram a surgir bowl games sem sequer um nome “formal”, só tinham o patrocinador e pronto: Perdigão Bowl, Havaianas Bowl, Bovespa Bowl, Natura Bowl e vários outros do tipo – o próprio Madero Pinhão Bowl acabou derrubando totalmente o nome clássico e virou apenas Madero Bowl.

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Num determinado ano, Flamengo e Remo – que compunham o topo de vários dos Top 25’s – venceram suas respectivas conferências e foram convidados para jogar o Vivo Sauípe Bowl e, olha que interessante, o vencedor da partida acabou sendo declarado como Campeão Nacional por praticamente todos os veículos de imprensa. Isso levantou uma questão interessante: por que não tentar “forçar” um jogo de pós-temporada entre duas equipes fortes de modo a declarar um único campeão anualmente?[note]Aqui, estamos lá no começo dos anos 90, época em que surgiu a Bowl Coalition e posteriormente a Bowl Alliance, grupos composto pelas conferências e pelos comitês organizadores de bowl games de maior renome de modo a forçar matchups de qualidade que facilitassem a escolha de um campeão nacional.[/note]

Com o passar do tempo, a história toda foi se organizando cada vez mais e surgiu um grupo cujo objetivo era reorganizar toda a temporada de bowls de uma vez só. Este grupo adotou quatro dos jogos mais tradicionais – Sauípe, Farroupilha, Copacabana e Metrópole – como seus, mantendo alguns tie-ins originais (Nordeste x Sudeste, Sul-9 x Amazonas), com vagas automáticas reservadas aos campeões das maiores conferências – se o Corinthians, independente, terminasse a temporada numa boa posição, também tinha vaga garantida – e as demais sendo distribuídas para as melhores equipes dentre as não-campeãs de conferência. De modo a tomar uma decisão mais embasada, este grupo resolveu iniciar o seu próprio processo de ranqueamento, que tinha dois componentes humanos (os Top 25’s d’O Globo e d’O Estadão) e um computacional (com rankings programados por vários caras que manjavam do assunto, como doutores em matemática e formações parecidas). De modo a evitar o efeito dos rankings de começo de temporada, o Top 25 do grupo só era publicado a partir da oitava semana da temporada.

Eventualmente, foi criado um jogo à parte – a Final Nacional – que servia para colocar frente a frente as equipes ranqueadas como #1 e #2 ao final da temporada, independentemente das conferências das quais elas vinham. Num determinado ano, a Final Nacional foi entre #1 Flamengo e #2 Fluminense – todo mundo esperava um jogão, mas não foi lá essas coisas não…[note]Aqui, estamos no auge do BCS, Bowl Championship Series, que operava os bowls Rose, Fiesta, Sugar e Orange e acabou criando um jogo à parte, o National Championhip Game, cujo local rotacionava entre os estádios dos quatro bowls em questão. Este sistema perdurou até 2013.[/note]

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Só que os rankings matemáticos geravam uma certa controvérsia e, além disso, os brasileiros começaram a clamar por um sistema que envolvesse mais equipes lutando pelo título nacional. Até mesmo o presidente da República interveio e os dirigentes acabaram cedendo à pressão. O novo sistema derrubava totalmente a existência do ranking matemático e até mesmo os Top 25’s mais conhecidos e os substituía por seu próprio sistema de classificação: um ranking montado em conjunto por um Comitê de Seleção.

galvaoEste Comitê trazia gente que respirava futebol: ex-técnicos como Carlos Alberto Parreira, ex-jogadores como Romário, ex-dirigentes como Eurico Miranda e também membros da imprensa esportiva como Galvão Bueno e até Milly Lacombe estavam presentes. Além de organizar um Top 25, este comitê de notáveis era responsável por selecionar os matchups dos principais bowls – a disputa pelo título agora seria entre quatro equipes, não mais duas.

Além dos quatro bowls de elite anteriores, o grupo passou a chancelar também o Látex Bowl e Madero Bowl (que voltou a se chamar Pinhão Bowl). A cada ano, dois deles serviriam como semifinais nacionais nas quais participariam as quatro melhores equipes do ranking final, enquanto os demais trariam confrontos entre campeões de conferência e/ou equipes com boas posições. De modo a retornar à tradição criada pelo Sauípe Bowl, os jogos foram todos concentrados entre os dias 31/12 e 01/01.

Na primeira edição, tivemos #1 Internacional x #4 Sport no Metrópole Bowl, enquanto #2 Palmeiras enfrentou #3 Bangu (que teve uma temporada invicta) no Sauípe Bowl. A final foi entre Palmeiras e Sport, na qual o Leão da Ilha se consagrou o primeiro campeão nacional no novo sistema.[note]Mais ou menos o que aconteceu em 2014, quando o College Football Playoff inaugural foi disputado por #1 Alabama, #2 Oregon, #3 Florida State e #4 Ohio State, com os Buckeyes vencendo.[/note]

O mais interessante é que mesmo com um novo sistema para a disputa do título nacional, os demais bowl games continuaram em plena existência. Ou seja: além de determinar um campeão de maneira mais eficaz, o sistema conseguiu garantir a sobrevivência financeira dos muitos jogos de pós-temporada.

Assim, todos saíram ganhando: os organizadores dos bowls (seu produto não sofre ameaça nenhuma), as equipes (agora são duas vagas a mais na disputa pelo título nacional) e, acima de tudo, os torcedores!

sport


E aí, conseguiu entender um pouco da enorme história do college football? Caso você esteja interessado numa versão menos alegórica e mais factual, eu indico o texto deste link que eu escrevi pro Pro Football. Nele, eu falo a respeito do surgimento do Rose Bowl Game, o primeiro de todos os bowl games, e do crescimento da tradição de jogos de pós-temporada no college football.

2 thoughts on “Como o futebol brasileiro vai te fazer entender a Bowl Season”

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