A ciência por trás do ódio – Por que jogos de rivalidade são diferentes?

Browse By

Estamos naquela que sempre é a melhor rodada da temporada do college football, a semana das rivalidades (Rivalry Week). Alguns dos confrontos mais clássicos da história do esporte ocorrem anualmente no mesmo “fim de semana prolongado” (Thanksgiving nos Estados Unidos), que também é a última semana da temporada regular na maior parte das conferências da FBS.

Jogos de rivalidade adicionam um tempero extra nas campanhas das equipes envolvidas, e em diferentes níveis: seja brigando por uma vaga no College Football Playoff, na disputa dos títulos de divisão/conferência ou mesmo por algo mais modesto como aquela sexta vitória na temporada que qualifica a equipe para um bowl game.

Mas antes de tentar explicar o efeito que uma rivalidade causa na reta final da temporada, devemos primeiro responder uma pergunta bem básica…

O que é uma rivalidade?

Vou evitar escrever um texto técnico e truncado (afinal de contas, estamos num site de esportes e não num periódico científico não é mesmo?), mas é inevitável citar alguns nomes e estudos feitos nesta área. Pra começar, a melhor definição que já vi de rivalidade – dada por Mina Cikara, uma pesquisadora de Harvard:

A rivalidade está fundamentalmente relacionada à competição, mas é uma competição ao longo do tempo, proporcionando uma oportunidade para que atitudes e emoções se tornem mais polarizadas e arraigadas.

Ou seja, uma rivalidade não é uma competição comum e, portanto, gera efeitos que não são ordinários. Esta ideia de que as pessoas apresentam diferentes comportamentos em diferentes níveis de competição veio primariamente num estudo pioneiro liderado pelo americano Norman Triplett (precursor da Psicologia Social) em 1898: ele observou que ciclistas corriam mais rápido quando outros ciclistas estavam presentes.

Interessante não? Na época em que muitas daquelas que atualmente são as principais rivalidades do college football estavam apenas nascendo, já se sabia que a existência de um rival alterava significativamente uma competição. Mas de lá pra cá, o que mais conseguimos descobrir?

ugagt

Os efeitos de uma rivalidade

Nos últimos anos, vários estudos também têm surgido e explicado “cientificamente” diversos fatores que vemos na prática em competições universitárias. Podemos citar como exemplo o trabalho de Gavin Kilduff (pesquisador de NYU) que mostrou que o “plus” das rivalidades vêm basicamente de similaridade, proximidade e história: quer exemplo mais clássico que envolve esses três fatores do que o Iron Bowl entre Alabama e Auburn? As duas são universidades públicas, no mesmo estado (distantes aproximadamente 250 km uma da outra) e se enfrentam desde 1893!

LEIA TAMBÉM:  NY6 Preview: Cotton Bowl - #8 USC vs. #5 Ohio State

Também podemos dizer que as rivalidades são mais fortes quando os records históricos são próximos: tomando novamente o Iron Bowl como exemplo, observamos que nos últimos 35 anos Auburn venceu 18 dos confrontos – apenas um a mais que Alabama1.

Mas talvez o mais surpreendente quando falamos em rivalidades é o fato delas aumentarem a motivação dos jogadores, desde o thrash-talk nas redes sociais antes da partida até aquele segundo esforço que o cara faz para anotar um touchdown com o cronômetro zerado. O mecanismo através do qual isso acontece ainda não é totalmente conhecido, cientificamente falando, mas em algum momento o gatilho psicológico se converte em efeitos físicos.

Dá pra citar aqui algo bem interessante que aconteceu numa liga inglesa de futebol em 2003: jogadores de várias equipes tiveram amostras de saliva colhidas antes e depois de treinos e jogos contra diferentes oponentes e um estudo posterior mostrou que em jogos de rivalidade os níveis de testosterona estavam significativamente maiores.

E esta provavelmente é uma das razões pelas quais jogos de rivalidade geralmente são apertados e/ou terminam em upsets: o fator rivalidade faz com que os jogadores (especialmente da equipe underdog) acabem tendo um desempenho acima da média e isso muitas vezes acaba dinamitando as linhas de apostas – fica a dica para os apostadores.

bamaauburn

Mas tudo tem um limite…

Voltando ao senso comum, nós sabemos que há dois sentimentos muito peculiares nos esportes que são mais fortes ainda quando se trata dos rivais. Não há um termo em português para nenhum deles, então vamos emprestar as palavras da língua alemã: schadenfreude (alegria causada pela desgraça alheia) e gluckschmerz (tristeza causada pela alegria alheia) – que atire a primeira pedra aquele que ao ver um rival dropando um passe na end zone nunca ficou tão ou mais feliz quanto ao ver a sua equipe anotando um touchdown!

Mas temos que nos lembrar de manter o sentimento de “ódio” de uma rivalidade apenas no espaço e tempo ao qual ele pertence: nas quatro linhas do campo e durante a partida. Não é nada sensato querer levar uma rixa dessas para fora de campo – e nisso as fanbases dos esportes universitários americanos geralmente dão show, uma vez que raramento ficamos sabendo de brigas entre torcidas. É claro que volta e meia acontece um ou outro episódio lamentável, mas numa frequência muito menor do que aquela que vemos no futebol brasileiro, por exemplo – e olha as rivalidades por lá são tão fortes quanto qualquer Flamengo x Fluminense ou Corintians x Palmeiras daqui (ou mais).

LEIA TAMBÉM:  Brazilian Press College Football Top 25 – Semana 10

Um dos exemplos mais legais dos últimos anos aconteceu justamente naquela que é uma das rivalidades mais ferrenhas da história do college football, o “The Game” de 2014 entre Michigan e Ohio State: o quarterback dos Buckeyes J.T. Barrett acabara de se lesionar e, enquanto recebia atendimento médico em campo, o quarterback rival, Devon Gardner, se ajoelhou ao seu lado e o consolou.

Independentemente dos sentimentos e reações causados por uma rivalidade (seja no campo emocional ou físico), a lição que fica é uma bem simples de se entender: rivais sim, inimigos não.

gardnet

  1. Vale lembrar que este dado é de 2015. Nas duas últimas temporadas Alabama saiu de campo vitoriosa.

Comentários

comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também